Cenas de uma Recriação

Violentos abalos fazem tremer as grossas paredes do Mosteiro

3No primeiro dia de Novembro do ano de 1755 da era de Nosso Senhor Jesus Cristo, quando a igreja do mosteiro se encontrava cheia de crentes que assistiam à missa, depois de um forte estrondo vindo das entranhas da terra, violentos abalos fizeram tremer as grossas paredes do templo, chegando a provocar a queda de alguns pináculos e fraturas no arco do coro. As pessoas em pânico correram para a porta, invocando em altos gritos a misericórdia de Deus e o perdão dos seus pecados. Muitas ficaram feridas por serem pisadas pela multidão em debandada. 

Tonsura

É o primeiro passo necessário para ingressar na vida religiosa e simboliza a renúncia às vaidades do mundo. A beleza dos cabelos de uma jovem, fonte de vida e fertilidade, não podem, na clausura, despertar a sensualidade e a paixão, ser objeto de atração para os homens. Por isso, são cortados às adolescentes que aqui devem “morrer” para o mundo exterior, deixando, à entrada, o primeiro pedaço do seu encanto. 

 Eleição da Abadessa

Por estes dias, toda a comunidade se reúne no coro das freiras, em ordem a eleger a religiosa mais prendada e a que mais apta estiver para o cargo de Abadessa e para a regência do nosso Mosteiro. Seguir-se-á o escrutínio, em que terão voto as noventa e uma religiosas. Das novas se dará conta, quando o Espírito Santo se manifestar. Entretanto, poetas, boémios e bacharéis já preparam as suas rimas para o Abadessado deste ano, em louvor da monja eleita.

Enfermaria | Cela da freira doente

Quando os humores se desequilibram, a saúde ressente-se, dizem entendidos das artes médicas e da cura de enfermos. Aliás, diz-se que até o caráter tem a ver com a saúde de cada um. Sanguíneo, fleumático, colérico ou melancólico. As doenças da plenitude, curam-se por evacuação. As da vacuidade, por repleção. E os contrários pelos contrários, com purgantes, vomitivos, cautérios, sangrias e clisteres. Os conventos cistercienses sempre deram muita atenção aos cuidados de saúde. Às dietas, às quarentenas, ao desenvolvimento de ervas e “drogas” medicinais. Há uma freira doente, aparentemente coisa simples, mas que requer algum cuidado. Na sua cela, reza-se, sangra-se, dá-se um clister, leva-se a enferma ao pote. O seu estado de saúde deteriora-se, e a morte aproxima-se. Na doença, reflete-se sobre a fé, o significado da vida na terra e da vida eterna.

Morte da última freira

Em 1886, entrega a sua alma a Deus, a última freira deste Real Mosteiro de Santa Maria de Arouca, de seu nome Dona Maria José de Gouveia Tovar Melo e Meneses. Tomando a mantilha de noviça aos 10 anos, deu-lhe a graça o Senhor de ali viver durante 74 anos, tendo sido abadessa nos últimos 19. Os seus derradeiros momentos de vida terão sido tristes, por ter acompanhado a morte das suas companheiras de profissão. Restavam-lhe o apoio e a companhia da sua fiel e dinâmica criada. A permanência de umas poucas pupilas e educandas não alimentava a esperança do ressurgimento da vida monástica.

Episódio da Guerra Civil | Frei Simão de Vasconcelos

A história de Frei Simão de Vasconcelos é também parte da história de Arouca. “Frade guerrilheiro”, como ficou conhecido, acabou por ser protagonista de um episódio trágico. Trágico, pela sua captura e execução. Trágico também pela tortura e morte de Bernardino Vaz Pinto, capitão-mor do distrito militar de Arouca, que se trava de razões com o frade junto ao Mosteiro. Absolutistas e liberais também esgrimiram argumentos em Arouca.

Artesãos | Artes e Ofícios

Passado o portão do tempo, parece vivermos o dia-a-dia novecentista. Ao longo do Terreiro, passam padres e frades, mas também encontramos, a trabalharem, o carpinteiro, o ferreiro, o hortelão, o aguadeiro. Trabalha-se o linho e a lã. Fazem-se sapatos. Restauram-se estátuas de santos. Camponeses e artesãos convidam-nos a apreciar o cheiro, a cor e o sabor da fruta e da doçaria conventual. Há sons de um povo que trabalha, enquanto passam nobres, de carruagem puxada a cavalo, para visitarem familiares no Mosteiro, deixando a esmola aos mendigos. Convivemos, aqui, com um povo que trabalha. Que vive em torno do seu Mosteiro. Abraçando-o e tornando-o seu.

Casa dos Enjeitados

Junto à Casa dos Expostos ou dos Enjeitados, dois vultos afastam-se e deixam um recém-nascido no interior da roda de madeira. As amas de criação correm ao choro frágil e procuram os que ali deixaram aquela pequena trouxa de panos, contendo uma pequena vida. Não encontram ninguém, a não ser aquele pequeno ser frágil. Uma nova vida é alegria. Vida que vão poder ver crescer e desenvolver-se. Vida que será, desta forma, salva. Vidas que deixam, assim, de ser expostas ou enjeitadas. 

Entrega das Varas do Poder Municipal

Todos os anos, a Abadessa do Mosteiro entregava as varas do poder Municipal – os pelouros – aos Homens Bons de Arouca, que ocupavam os cargos municipais. Esta cerimónia tinha lugar na Portaria Principal do Mosteiro.

Reunião de Capítulo

Reúne-se o capítulo. As freiras chegam à sala entoando melodias gregorianas, com a solenidade que este espaço e esta ocasião merecem. Os assuntos do dia-a-dia são debatidos.

Bandas de Música em despique

Terá lugar, por estes dias, um renhido despique musical, com a participação das bandas de música de Arouca e Alvarenga. Afamadas pela sua qualidade musical, tanto quanto pela rivalidade que cultivam, aficionados de uma e de outra irão, por certo, proporcionar bons momentos de arte e lazer a quem passar pela vila de Arouca.